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cyro de mattos
17.Julho.2021

Encruzilhada


O filho disse:

- Cuidado, é um despacho para Exu.

Não adiantou o aviso.

Pisou no alguidar com a farofa de dendê.

Quebrou o alguidar, espalhou a farofa.

Apagou a vela. Amassou o charuto.

Por pouco não quebrou a garrafa de cachaça.

Em casa, o suor pingava no rosto.

O frio tomava conta do corpo.

E aquela dor no pé.

Acordou no outro dia assustado.

O pé inchado. Todo preto.

Foi ao médico, que perguntou:

- Como foi que isso apareceu?

Contou tudo. O médico, sem acreditar.

Fez esforço para não sorrir.

- Está gangrenado, temos que amputar o pé.

- Dê um jeito, mas isso não, doutor.

- Pior é perder a perna.

Foi agendada a cirurgia.

À noite, o filho foi à encruzilhada;

Lá deixou o alguidar com a farofa de dendê.

A garrafa de cachaça. O charuto.

E uma vela grande acesa.

Amanheceu com o pé desinchado.

Voltou à cor normal.

Quando soube, o médico ficou sério.

“Que coisa mais maluca”, pensou.

Foi assim que tudo aconteceu.

Acredite se quiser.

 

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# Artigo do escritor Cyro de Mattos. Ficcionista e poeta, também editado no exterior. Premiado no Brasil, Portugal, Itália e México. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia. Doutor Honoris Causa da Uesc.

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