A magia da infância
À medida que crescemos, aprendemos a olhar para o relógio com avidez e medo de perder a hora. Os minutos correm, as horas voam, os dias se vão, as semanas se sucedem, os meses seguem seu curso e os anos acabam, dando lugar a novos. É o inevitável ciclo da vida.
Ficamos adultos. Temos que conviver com boletos que chegam. Compromissos se empilham e a vida se transforma em uma linha reta e apressada. Mas as crianças habitam outra dimensão.
O vento que varre a poeira do tempo, que tudo resolve, se encarrega de colocar as coisas no devido lugar.
Para as crianças, o tempo não se mede em horas, mas em histórias.
O escritor moçambicano Mia Couto acredita que a infância não se resume a uma faixa etária ou a uma coleção de memórias do passado, mas sim a um estado de espírito, uma disponibilidade para o encantamento e uma forma única de lidar com o mundo.
Basta observar uma criança diante de uma formiga carregando um farelo de pão dez vezes maior que ela. Para um adulto, aquilo é apenas um detalhe irrelevante da calçada. Para a criança, é um épico medieval, uma batalha de gigantes, um filme em câmera lenta que merece ser assistido com a respiração suspensa, agachado no chão quente, até a formiga dobrar o canto da guia.
Meu neto Heitor, de um ano e nove meses, está descobrindo as coisas simples do mundo. Ele deixa de lado brinquedos caros e tecnológicos para se entreter com vassouras, rodos e pá de lixo. Aquilo o fascina.
Na infância, o mundo é um playground de materiais brutos e imaginação sem limites. Uma vassoura se transforma em um cavalo alado, um lençol preso no sofá se torna um castelo intransponível e um carocinho de manga chupada vira moeda de troca em um reino secreto. Enquanto os adultos se esforçam para “fazer o tempo render”, as crianças simplesmente querem habitá-lo por completo.
Quando menino, ouvi inúmeras vezes a pergunta: “O que você vai ser quando crescer?” Minhas respostas variavam de bombeiro a jogador de futebol, artista, dono de fazenda e até mesmo trapezista de circo.
Hoje, ninguém mais me pergunta sobre minhas aspirações futuras, mas minha resposta permanece a mesma: “Gostaria de ser criança novamente”. No outono da vida, percebo que foi durante a infância que experimentei a maior felicidade. As crianças não têm consciência de sua felicidade; elas simplesmente a vivem em sua plenitude.
Frequentemente, enfatizamos a importância de “ensinar as crianças a serem fortes para enfrentar o mundo”. Talvez, no entanto, a abordagem deva ser o oposto. Talvez devêssemos pedir licença e sentar no chão com elas, apenas para relembrar a beleza do mundo quando um abraço apertado resolvia qualquer problema e a maior preocupação do dia era saber se dava tempo de brincar mais um pouco antes do sol se pôr.
A escritora Lya Luft captura a essência da infância com a metáfora: “A infância é um chão que a gente pisa a vida inteira”. Minhas memórias da infância servem como refúgios permanentes, oferecendo um santuário da dureza da vida adulta.
Para manter a leveza na vida, precisamos ser irreverentes. Diante da vida, devemos permanecer como crianças grandes. Quando um adulto sufoca a criança interior, ele não se torna um adulto de verdade, mas sim adultera-se.
Bem-aventurados os que não sufocaram a criança interior que teima em habitar seus dias.
Parabéns aos meus queridos filhos, Rodrigo e Frederico. Hoje, homens feitos, mas para mim, continuo a olha-los como minhas crianças. Desejo-lhes tudo de melhor.
12 de outubro. Feliz Dia das Crianças. Apesar de ser uma data comercial, é importante lembrar que ser criança é manter a essência da vida.
Luiz Thadeu Nunes e Silva, Eng. Agrônomo, Palestrante, cronista e viajante: o latino americano mais viajado do mundo com mobilidade reduzida, visitou 162 países em todos os continentes da terra. Autor do livro “Das muletas fiz asas”. Membro do IHGM, Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão. E-mail: luiz.thadeu@uol.com.br, Instagram: @luiz.thadeu
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