Transtorno Bipolar: Viver entre extremos emocionais
Cláudia acordava acelerada em alguns dias. Nesses períodos, falava sem parar: as palavras saíam rápidas, atropeladas, cheias de ideias e planos urgentes. Dormia pouco, sentia um misto de empolgação e irritabilidade. Para quem estava de fora, era apenas “falante demais”, “elétrica”, “exagerada”.
Em outros momentos, sem aviso, tudo escurecia. A fala diminuía, o corpo pesava, o pensamento ficava lento. Cláudia se isolava, perdia o prazer pelas coisas simples e carregava uma tristeza que não sabia explicar. O silêncio substituía a verborragia, e a mulher acelerada dava lugar a alguém exausto de existir.
Durante anos, recebeu rótulos, conselhos e cobranças para se controlar. O que ninguém via, nem ela, era que Cláudia vivia com transtorno afetivo bipolar não diagnosticado, atravessando ciclos de mania e depressão sem nome, sem tratamento e sem acolhimento.
Você já se sentiu assim em algum momento da vida? Ou conhece alguém que parece viver entre extremos emocionais, alternando fases de grande energia com períodos de desânimo profundo? Histórias como a de Cláudia são mais comuns do que se imagina e ajudam a compreender o transtorno bipolar, uma condição de saúde mental ainda cercada de desinformação e preconceito.
O transtorno afetivo bipolar é caracterizado por oscilações intensas e recorrentes do humor, que alternam períodos de depressão com períodos de euforia, chamados de mania ou hipomania. Essas mudanças vão muito além das variações emocionais normais do dia a dia e costumam provocar impactos significativos na vida pessoal, familiar, social e profissional.
Estima-se que o transtorno bipolar atinja mais de 2% da população brasileira, afetando homens e mulheres de forma semelhante. O início mais comum ocorre entre a adolescência e o começo da vida adulta, em torno dos 18 anos, mas a doença pode surgir em qualquer fase da vida, inclusive na infância ou na velhice.
Durante os episódios depressivos, são frequentes sintomas como tristeza persistente, desânimo, perda de interesse ou prazer, cansaço intenso, alterações no sono e no apetite, dificuldade de concentração, sentimentos de culpa ou inutilidade e, em casos mais graves, pensamentos de morte ou suicídio. Já nos episódios de mania ou hipomania, a pessoa pode apresentar fala excessiva e acelerada, pensamentos rápidos, redução da necessidade de sono, aumento de energia, impulsividade, comportamentos de risco, gastos excessivos e irritabilidade. Nem sempre a mania se manifesta como alegria; muitas vezes, o que predomina é a impaciência e o comportamento irritado, o que gera conflitos frequentes.
O transtorno bipolar pode se apresentar de diferentes formas. No tipo I, ocorrem episódios maníacos mais intensos, que podem exigir internação. No tipo II, predominam episódios depressivos associados a fases de hipomania, mais leves, mas ainda assim capazes de causar grande sofrimento. Há também formas mais brandas, como o transtorno ciclotímico, marcado por oscilações crônicas do humor, frequentemente confundidas com traços de personalidade.
As causas do Transtorno Bipolar envolvem uma combinação de fatores genéticos, biológicos e ambientais. A história familiar é um dos fatores de risco mais importantes: parentes de primeiro grau de pessoas com transtorno bipolar têm risco cerca de dez vezes maior de desenvolver a doença. No entanto, a ausência de histórico familiar não exclui a possibilidade de diagnóstico, já que o transtorno pode se manifestar mesmo em pessoas sem casos conhecidos na família. Situações de estresse prolongado, privação de sono, uso de álcool e drogas, além de algumas condições médicas ou medicamentos, podem funcionar como gatilhos para o aparecimento ou agravamento dos episódios.
O curso do transtorno bipolar tende a ser recorrente. Mais de 90% das pessoas que apresentam um episódio maníaco terão novos episódios ao longo da vida. Em alguns casos, esses episódios se repetem com maior frequência, quadro conhecido como ciclagem rápida, o que torna o tratamento mais complexo.
Outro aspecto relevante é a presença de comorbidades. A maioria das pessoas com transtorno bipolar apresenta também outros transtornos associados, especialmente transtornos de ansiedade, além de uso problemático de álcool e outras substâncias, TDAH e algumas condições clínicas, como síndrome metabólica e enxaqueca. A associação entre transtorno bipolar e uso de álcool aumenta significativamente o risco de suicídio, reforçando a gravidade do quadro.
O diagnóstico do transtorno bipolar é clínico, baseado na história do paciente ao longo do tempo. Não existe exame laboratorial que confirme a doença. Por isso, o diagnóstico costuma ser tardio, já que muitos pacientes procuram ajuda apenas durante a fase depressiva, sendo confundidos com depressão comum.
Embora o transtorno afetivo bipolar não tenha cura, ele pode ser controlado. O tratamento envolve acompanhamento psiquiátrico, uso de medicamentos estabilizadores do humor, psicoterapia e mudanças no estilo de vida, como manter uma rotina regular de sono, reduzir o estresse e evitar álcool e drogas. Com diagnóstico correto, tratamento contínuo e apoio, é possível viver com mais equilíbrio, funcionalidade e qualidade de vida.
Falar sobre transtorno bipolar é essencial para romper o estigma, favorecer o reconhecimento precoce dos sinais e transformar histórias como a de Cláudia — e de tantas outras pessoas — em trajetórias de cuidado, acolhimento, tratamento adequado, estabilidade emocional, qualidade de vida e paz possível.
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# Artigo de Raquel Rocha, Neuropsicóloga, Especialista em Saúde Mental, Escritora e Presidente da Academia de Letras de Itabuna.
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